Beata Maria Clara

Mãe Clara, Calcutá no Tejo
(JOÃO CÉSAR DAS NEVES)

 As últimas décadas impressionaram-se muito com a caridade de Santa Teresa de Calcutá. O seu amor pelos mais pobres entre os pobres, a que dedicou a sua congregação, foi empolgante e divulgado por todo o planeta na era da comunicação. Aquilo que os jornalistas não sabiam é que esse tipo de caridade nada tem de especial, sendo muito frequente entre os discípulos de Cristo. A história da santidade está cheia de exemplos semelhantes ao longo de 2000 anos. Em Portugal, entre muitos outros casos, existe um que, cem anos antes, antecipa perfeitamente a missão de Santa Teresa, trazendo Calcutá até ao Tejo.

A madre Maria Clara do Menino Jesus nasceu há 175 anos, fundando, aos 30 anos, uma congregação dedicada ao auxílio dos mais pobres. No século XIX, Lisboa tinha muitas semelhanças com a Calcutá actual; foi essa miséria que fez sangrar o coração da religiosa. A Associação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres por Amor de Deus nasceu em 1871 e rapidamente as obras multiplicaram-se diante das necessidades. Creches e colégios para as crianças abandonadas, lares de idosos, hospitais para doentes, cozinhas alimentando os pobres, a Associação foi-se encontrando envolvida na ajuda a milhares de infelizes. Os pedidos de irmãs vinham de vários lados, e apesar do grande número de vocações, as necessidades eram sempre maiores.

Há, no entanto, uma grande diferença entre a santidade da Mãe Clara e a de Santa Teresa: no Portugal de oitocentos o poder, embora incapaz de tratar da miséria, seguia ideologias que recusavam as ordens religiosas. Por isso, toda essa magnífica obra de amor foi sempre feita em semi-clandestinidade e eminente risco de extinção, sob ocasionais ataques absurdos e violentos. Os inimigos não eram apenas a fome, a doença, a solidão e a carência, mas também a incompreensão, a calúnia, a blasfémia e a perseguição.

A única arma das irmãs era o amor de Deus, que a congregação ostentava no seu nome nestes primeiros tempos. Esse amor era eficaz. A história de Mãe Clara está cheia de episódios de intervenções providenciais: a falta aflitiva de qualquer coisa, comida, roupa, dinheiro, era súbita e inesperadamente colmatada por uma oferta inopinada. Como ela dizia: «nunca desconfio de Nosso Senhor, que Ele Se não digne dar-me uma prova da sua paternal bondade». Mas aquele aspecto em que melhor se via o amor de Deus era a multiplicação de vocações, desproporcionada aos obstáculos que agrediam a Associação, tornando-a a maior congregação do país.

Hoje, após mais de 145 anos de história e sete anos após a beatificação da Fundadora, a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, CONFHIC continua a sua missão, porque a miséria permanece na era da informação, junto com o amor de Deus.

Resenha histórica da Beata Maria Clara do Menino Jesus

Irmã Maria Clara do Menino Jesus (Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Teles e Albuquerque) nasceu no seio de uma família nobre, a 15 de Junho de 1843, na Quinta do Bosque – Amadora, perto de Lisboa. Foram seus pais Nuno Tomás de Mascarenhas Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque e Maria da Purificação de Sá Carneiro Duarte Ferreira. Foi baptizada na igreja de Nossa Senhora do Amparo, Benfica, no dia 02 de Setembro de 1843. Órfã desde os 13/14 anos, Libânia sempre demonstrou um espírito enérgico e independente, um temperamento forte, uma espiritualidade profunda e uma sólida firmeza de carácter, cimentado pelas inúmeras dificuldades e muitos sofrimentos com que se deparou ao longo da sua vida: O falecimento do seu tio-avô na sua própria casa, e o do seu irmãozinho Rui; A perda da mãe vítima da cólera mórbus, em 1856, e do pai em consequência da febre amarela, em 1857; O internamento no Asilo Real da Ajuda, destinado às órfãs de famílias nobres e dirigido pelas Filhas da Caridade Francesas (Irmãs de São Vicente de Paulo); A ocorrência do incêndio no palácio velho da Ajuda, onde estava instalado o Asilo; A expulsão das Religiosas, suas educadoras, em 1862, e consequente mudança de residência para o palácio dos Marqueses de Valada, onde viveu cinco anos, continuando a preparação para o meio social que era o seu – a nobreza. Apesar de tratada como filha, sobretudo pela Marquesa, amiga de seus pais, Libânia sentia em si uma força íntima que a impelia a um ideal maior. O clamor dos sem nada e sem ninguém desafiava o seu viver. Vai procurar a Vida Religiosa como meio de se entregar totalmente ao serviço dos mais necessitados. Após vida luxuosa, contrastante com a pobreza e miséria da sociedade do seu tempo, recolheu-se em 1867, como pensionista, na Casa de S. Patrício, junto das Irmãs Capuchinhas, orientadas pelo P. Beirão. Percebendo claramente o chamamento do Senhor, em 1869, tomou o hábito de Capuchinha de Nossa Senhora da Conceição e recebeu o nome de Ir. Maria Clara ao Menino Jesus. A 10 de Fevereiro de 1870, a pedido do P. Beirão, partiu para o Convento de Nossa Senhora das Sete Dores, em Calais - França, para aí fazer o Noviciado, na intenção de fundar, depois, em Portugal, uma nova Congregação. Professou no dia 14 de Abril de 1871, em França, regressando à Pátria, a 01 de Maio desse ano, como Superiora Local e com a faculdade de estabelecer, em S. Patrício, um Noviciado filial de Calais, cargos que assume três dias depois. Ficava assim fundada a primeira Comunidade, em São Patrício – Lisboa, no dia 03 de Maio de 1871 e, cinco anos depois, a 27 de Março de 1876, a Congregação já estava aprovada pela Sé Apostólica. Ao longo de 28 anos, presidindo aos destinos da Congregação, recebeu cerca de 1000 irmãs e com elas tornou-se pioneira da acção social no seu país, fundando mais de 142 obras, distribuídas por hospitais, enfermagem ao domicílio, creches, escolas, colégios, assistência a crianças e idosos, cozinhas económicas, entre outras. Nestas instituições o pobre, o doente, o desvalido de toda a sorte, a massa sobrante do seu tempo, puderam conhecer o amor e os cuidados de mulheres dedicadas inteiramente ao serviço dos mais necessitados, experimentando assim a ternura e a misericórdia de Deus. A exortação frequente: “Trabalhemos com amor e por amor” era a síntese do seu viver. Só a caridade a norteava. Toda a sua vida foi um gastar-se no labor contínuo de “fazer o bem, onde houver o bem a fazer", lema de acção do Instituto por ela fundado. Esta mesma acção foi estendida, progressivamente, a Angola, Goa, Guiné e Cabo Verde. A Ir. Maria Clara do Menino Jesus faleceu no Convento das Trinas, em Lisboa, no dia 1 de Dezembro de 1899, com 56 anos, vítima de doença cardíaca, asma e lesão pulmonar. Foi sepultada três dias depois, no cemitério dos Prazeres, acompanhada de enorme multidão de fiéis que reconheciam a sua santidade. Sepultada no Cemitério dos Prazeres, foi trasladada, em 1954, para o Convento de Santo António, em Caminha, e repousa, a partir de 1988, na cripta da Capela da Casa-Mãe da Congregação, em Linda-a-Pastora, Queijas, Patriarcado de Lisboa, onde acorrem inúmeros devotos a implorar a sua intercessão junto de Deus.